• Crítica Poder sem Limites: Difícil manter-se indiferente

      Poder Sem Limites acaba sofrendo com as próprias limitações que o tipo de linguagem trabalhada impõe, mas tem seus méritos por não ser acomodado como poderia.

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    • Por
      Amenar Costa

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    • O espectador é o Deus. Se procurarmos em alguns livros de teoria cinematográfica, existem algumas explanações a respeito da posição que o espectador assume diante da obra cinematográfica, do olhar e experiências individuais, e da condição de emitir um juízo de valor a respeito do produto. Acredito que essa estrutura permanece basicamente a mesma até então, mas a linguagem de “Poder Sem Limites” procura “reduzir” o espectador a um personagem: A câmera.

      Sim, acredito que exista uma diferença aí. Uma coisa é se analisar um filme que se comporta como tal, que segue uma estrutura narrativa onde é possível notar-se o desenho do roteiro, a construção da encenação, e recursos técnicos que tecem a lógica da linha ficcional, tendo uma câmera se comportando como narrador-observador. Outra coisa é você ter acesso à um visão unilateral de uma câmera que se comporta como narrador-personagem, onde a mesma emula situações reais, procurando provocar justamente um estranhamento derivado da colateralidade do âmbito real e fictício.

      Percebe-se que esse tipo de linguagem – até então -, não vem sendo usada no intuito de se aprofundar na história dos personagens, esmiuçar conflitos e desenvolver histórias complexas, mas sim pôr o espectador numa experiência sensorial, subjetiva, e limitar sua visão ao universo restrito de um olhar parcial da personagem-câmera sobre a história.

      Em “Poder Sem Limites”, não vemos uma evolução muito grande em relação à ícones do “gênero”, como “A Bruxa de Blair”, “REC”, “Cloverfield”, e “Atividade Paranormal”, mas existe um esforço para inovar a forma como se usa a linguagem. É interessante a forma como o diretor Josh Trank usa dos poderes psíquicos de Andrew (Dane DeHaan), para fazer a câmera flutuar e filmar o próprio, como se fosse uma terceira pessoa.

      Em outras oportunidades Trank introduz outras câmeras na história, como a da namorada de Matt – Casey – que conversa com o rapaz enquanto ele também segura uma câmera na mão, e temos um diálogo que se divide nas duas câmeras sob ângulos diferentes. São usadas também câmeras de segurança – sem cor e sem som -, e no clímax temos condução e montagem bastante engenhosas, onde exploram diversos pontos de vista vindos dos aparelhos aleatórios nas ruas da cidade. Além dos recursos técnicos citados acima, nota-se o cuidado para tentar enriquecer a diegese do filme, através de espelhos – na cena onde Andrew encontra-se com reflexo dúbio -, ou em outra oportunidade onde o mesmo está chorando e a lente da câmera que mira o chão também está molhada, referenciando o humor do personagem. Além disso, a história tem camadas – superficiais, é verdade -, no que tange a presença alguns easter eggs durante o filme, como o que me pareceu ser a imagem de um alien num desenho colado na porta do guarda roupa de um dos personagens, algo semelhante ao que “Cloverfield” sabiamente fez ao apresentar informações de maneira discreta e distribuída entre algumas mídias.

      Sobre esse desenvolvimento, temos uma história simplória de três jovens que são expostos a um objeto misterioso e adquirem poderes extraordinários. Há uma tentativa de criar um arco dramático para um deles, Andrew, que é vítima de Bullying e tem problemas em casa, mas o tipo de linguagem do longa de fato dificulta uma exploração mais apropriada; o que temos são citações de filósofos como Schopenhauer e Jung, que tem observações em seus trabalhos que condizem com os conflitos do filme, e que, de certa forma, o conhecimento sobre esses enriquece a história em si.

      Temos personagens carismáticos, atores que sabem trabalhar com naturalidade e espontaneidade – o que reitera a proposta da tentativa da construção de uma realidade, e um tipo de linguagem que não soa forçada. Efeitos especiais/visuais bastante eficazes para o baixo orçamento do filme, e um som suficientemente bom para criar a devida atmosfera.

      “Poder Sem Limites” acaba sofrendo com as próprias limitações que o tipo de linguagem trabalhada impõe, mas tem seus méritos por não ser acomodado como poderia. Dinâmico e interessante, o filme mescla o sci-fi e histórias de super-heróis, e aventura-se em águas que o cinema deve se banhar de vez em quando, oferecendo uma experiência sensorial e atípica, onde acredito ser difícil manter-se indiferente.