• Crítica Pina: Para quando faltam as palavras

      Um filme belíssimo visualmente, e que ratifica o valor da arte como via para a imortalidade

    • | (848) Leituras | (3) Comentários
    • Por
      Amenar Costa

      Ver Perfil
      (10) Críticas Publicadas


    • “Dance, dance, otherwise we are lost”

      Essas são as palavras que encerram o longa documental “Pina”, de Wim Wenders. E essas são as palavras que conseguem traduzir todo o conteúdo do mesmo. Todo um conteúdo lírico, poético, tantas vezes mais sensorial que reflexivo, tantas vezes distante de um entendimento mecânico e técnico, e cada vez mais próximo do sublime, do intangível; o que, por sua vez, aparentemente sintetiza com precisão o trabalho da coreógrafa, dançarina, mestre e diretora de balé Pina Bausch.

      Interessante o teor que Wim Wenders resolve empregar na obra. Classificada como documentário, de fato temos depoimentos que vão costurando e guiando um fio narrativo do filme, mas é bastante pontual a maneira como o diretor trabalha com as noções documentais, ficcionais, alternando entre vídeos de arquivo da artista em questão, depoimentos de alunos/amigos, e interpretação de números de dança representativos do trabalho de Pina.

      Existe uma exploração interessante das noções de metalinguagem, dando ampla liberdade ao diretor para aventurar-se numa dinâmica atípica, com noções costuradas, mas que tem sempre como foco um enorme saudosismo à imagem de Pina. Sobre a dinâmica, Wenders vez ou outra traz um objeto de estranhamento no filme, sobretudo devido ao tipo de linguagem diferenciada dos números musicais/dançantes, o que não diminui o poder da obra – pelo contrário -, contudo oferta uma pequena quebra de ritmo.

      Por outro lado, é bastante engenhosa a escolha de Wenders ao posicionar a câmera atrás de cadeiras do teatro, o que estimula a imersão do espectador de fato nas poltronas da tela. Como adendo, a excelente utilização do efeito tridimensional consegue transformar em arte um efeito tão banalizado como o 3D – algo que Scorsese também utilizou-se com grande propriedade -.

      Os efeitos da imagem nas cópias em 3D (vale ressaltar que o longa foi FILMADO nesse formato), são de grande competência. Nota-se por detalhes mínimos como a translucidez das cortinas vermelhas do palco, ou as excelentes noções de profundidade e geometria espacial. O bom trabalho com o espaço no quadro exalta as impressões tridimensionais da imagem, que essas ganham textura deveras palpável.

      Assistir a “Pina” é como ver um musical, um documentário, e um espetáculo ao vivo. Uma obra que traz novamente a discussão dos limites da arte como via para a imortalidade, a transcendentalidade. A artista Pina Bausch agora torna-se um símbolo para um grande público, e as imagens carregadas de emoção e significado que Wenders apresenta em seu longa, mostram um trabalho que consegue entregar um belíssimo jogo de símbolos. Símbolos esses que só são utilizados para quando faltam as palavras.