• Crítica Anderson Silva: Como Água: A história do gladiador brasileiro

      O que torna mais inteligível em 'Anderson Silva: Como Água' é a praticidade sobre como o trabalho foi conduzido. Não há muito tecnicismo em sua execução, trata-se de um registro simples a partir de um roteiro prático, sem muitos rodeios.

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    • Por
      Ângelo Costa

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    •   Há muito o Brasil deixou de ser o país somente do futebol. Outros esportes tomaram igual proporção caindo no gosto dos brasileiros e sendo um convite para aqueles que desejam pratica-los mesmo que por hobby. Não é o caso do MMA, um esporte que como qualquer outro exige muito condicionamento físico e todos que adentram neste se encontram comprometidos em construir sua própria carreira. Apesar de ser considerado violento e sangrento é preciso levar em consideração toda a ética esportiva envolta da mesma. O "respeito" mútuo entre os combatentes (a palavra 'respeito' está entre aspas por conta das provocações antes das grandes lutas) e todo o processo organizacional por trás das mesmas que geralmente duram 3 a 5 minutos (e não estou falando de rounds) é sério e regido por regras internacionais onde todos os lutadores são obrigados a aceitá-las. Caso contrário, estão fora do jogo. O documentário 'Anderson Silva: Como Água' explica basicamente como funciona essa máquina e como é a relação entre estes senhores gladiadores.

      A decisão de usar como subtítulo do documentário o termo 'Como Água' é explicada logo no inicio do mesmo pelo mestre das Artes Marciais Bruce Lee. Ele explica que a água é uma substância química que se adapta a todo e qualquer tipo de recipiente, se você coloca a mesma numa garrafa, ela vai tomar a forma da garrafa, se você a coloca num copo, a água logo terá a forma de um copo. Como conselho para quem pratica este esporte, Lee explica que todo lutador deve ser como a água, onde é preciso aprender a se adaptar ao seu adversário, sempre. Aparentemente não é o que vemos no Anderson Silva do documentário, um lutador recluso e de certa forma polêmico como o próprio Pablo Croce (Diretor) faz questão de mostrar no longa. Em suas lutas televisionadas e constantemente colocadas em plano, vemos um Anderson provocativo, combativo no octógono ao mesmo tempo tentando exorcizar seus próprios demônios. Uma dicotomia captada pelo olhar da câmera e facilmente interpretada pelo espectador.

      Apelidado de 'Aranha', a história de Anderson Silva começa aos 7 anos de idade e foi através do Taekwondo que ele teve seu primeiro contato com um esporte de combate. Após esta iniciação nas Artes Marciais ele começou a treinar Muay Thai, um esporte que utiliza vários combinados de punhos, cotovelos, joelhos e outros, sendo considerada uma técnica bastante eficiente para quem pratica esta arte. Num total de 35 lutas, o 'Aranha' só foi derrotado 4 vezes. Desde 2006 começou a combater pelo UFC 'Ultimate Fighting Championship' uma das maiores organizações de artes-marciais do mundo. Defendeu seu cinturão 12 vezes, sendo que uma das lutas mais polêmicas citadas no documentário foi contra o brasileiro Demian Maia.

      E é a partir desta luta que o documentário pega o ritmo, vai tomando forma. Anderson é criticado mundialmente pela imprensa e pelo próprio presidente da UFC 'Dana White' por agir de forma "desleixada" contra seu oponente. Sua punição? Enfrentar um o estadunidense Chael Sonnen, um tipo provocador, que surge neste cenário com a função de desestabilizar o então recordista do UFC.

      Se no inicio Croce se preocupa em apresentar os detalhes mais importantes da vida do Silva, sua relação com a família e sua própria história de vida (contado por sua companheira). Aqui percebemos qual é o verdadeiro objetivo do diretor, a desmistificação do psicológico não somente de Anderson, que por muitas vezes ao longo do longa fica é perceptível o número de pessoas que precisam estar ao redor dele, não apenas para ajudá-lo nos treinos, mas servindo como apoio emocional e para sua autoestima. Situação inclusive comum em todo esporte corpo a corpo.

      Nesta importante ramificação de amigos do lutador encontra-se o Minotauro, citado por Anderson como um dos seus melhores amigos, que sempre o apoiou em todas as ocasiões. Porém, nem só de amigos vive o MMA, Sonnen se apresenta como o vilão perfeito. Aquele que busca desestruturar o campeão em busca do seu próprio favorecimento. O próprio empresário de Anderson é quem faz uma importante ponte nesta situação. Neste momento do documentário Silva está mais calado, concentrado, a câmera o acompanha constantemente em busca de uma resposta sua às provocações do seu próximo adversário. Quando finalmente Silva resolve desabafar sobre o que está realmente sentindo com toda a pressão da imprensa e das pessoas ao seu redor, o desabafo vem acompanhado de lágrimas, lágrimas de saudades de sua família, do medo, da insegurança, chegando ao ponto dele revelar que está pouco se importando com o resultado, pois ele acredita que com ou sem cinturão sua família ainda o considera um verdadeiro campeão.

      É interessante inclusive como Croce procura avaliar a personalidade de ambos os personagens (lutadores). Enquanto Anderson é um homem calmo e com uma paz interior que por vezes incomoda o espectador, Sonnen contradiz completamente. Explosivo e intimidador, sua maior preocupação é fazer com que Anderson perca seu equilíbrio, sua forma. Um verdadeiro duelo entre a mente e o corpo postos prova a partir da metade do documentário em diante.

      O que torna mais inteligível em 'Anderson Silva: Como Água' é a praticidade sobre como as coisas foram conduzidas. Não há muito tecnicismo em sua execução, trata-se de um registro simples a partir de um roteiro prático, sem muitos rodeios. O que legitima Croce como um bom diretor em vários aspectos. Sua objetividade em relação a este trabalho é curiosa, pois ainda que outros diretores optassem pelo endeusamento da figura de Anderson, este procurou o caminho mais difícil. Tornando o documentário sobre um lutador de MMA um instrumento de reflexão e não um instrumento de diversão.

      E é neste processo reflexivo qual foi proposto que é possível observamos as diversas camadas trabalhadas. Temos ali um exemplar pai de família, que vive entre o amor e o ódio no seu local de trabalho, a riqueza, fama e mulheres poderiam conduzi-lo para outro nível de experimentação, sua relação com os amigos e seus anseios. Em nenhum momento somos obrigados a acompanhar uma sequência de cenas desnecessárias de luta. A lógica visual escolhida por Croce é acertada do inicio ao fim.

      Finalmente, o documentário 'Anderson Silva: Como Água' não pretende em nenhum momento catequizar o espectador numa espécie de veículo informativo sobre o MMA, tampouco tem a intenção de ganhar novos adeptos deste esporte. Mas é praticamente impossível não se envolver com a história e desenvolver certa torcida por este protagonista da vida real. Um exemplo de vida, onde muitos poderão se identificar com sua história de vida.