• Crítica A Bela e a Fera 3D: Mais do que interesse financeiro

      O 3D convertido surpreende com o cuidado de tratar todas as camadas individualmente, buscando dar realmente as dimensões necessárias para o aprofundamento na história.

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    • Por
      Klaus Hastenreiter

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    • A companhia precursora em longas de animação, fundada pelo produtor Walt Disney, aproveitou a onda 3D e desde o ano passado com “O Rei Leão”, vem trazendo de volta filmes da sua fase chamada de “renascimento” nos anos 90 para a telona. Com a conversão para o novo formato sob o comando do diretor geral da divisão de animação (e co-fundador da Pixar) John Lasseter, “A Bela e a Fera” volta com força, provando que há mais do que interesse financeiro nessa ação da empresa do Mickey Mouse.

      Indicado ao Oscar de Melhor Filme pelo ano de 1991, “A Bela e a Fera” adapta a história da garota que apesar dos problemas com a sociedade local, sonha com um futuro melhor, mas é aprisionada por um príncipe transformado em monstro em seu castelo. Seu objetivo? Conquistar o coração da Bela e quebrar a maldição que o confina no corpo de Fera.

      A apresentação da história começa com um jogo de vitrais e uma narração um tanto desnecessária mas que dá o clima denso esperado, expondo ao espectador tudo que precede o encontro dos dois. Após esse momento à parte, a narrativa segue fluida e dinâmica, com as transições bem amarradas, respeitando as etapas de evolução do sentimento. Os diálogos são simples e fortes, dando ênfase as letras das músicas para construção dos personagens, mas não é a única ferramenta do roteiro, que traz uma enorme sutileza com ações simples mas significativas.

      Os elementos disponíveis são muito bem usados e simbólicos. Das invenções do pai de Bela, ao espelho que “mostra tudo o que quer ver”, da rosa que perde pétala por pétala ao longo dos anos, tudo funciona de uma forma orgânica e natural ao desenvolvimento da trama. Tudo, tudo dá a já lírica fábula um ar mais palpável, mais próximo pelos sentimentos viscerais expostos.

      Em um certo momento, é possível que o espectador se esqueça que de fato, está assistindo uma animação pela expressividade dos personagens (6 animadores pra cada um dos protagonistas). São olhares, contrações labiais quase imperceptíveis, mas que transmitem uma força enorme, um cuidado ao que se está passando. A “câmera” dá aos enquadramentos momentos únicos no cinema e remete ao seu passado, com diversos planos que evocam “E O Vento Levou” e “Cidadão Kane”. São alegorias interessantes, mas que vão além por comprovar o embasamento cinematográfico de seus realizadores.

      O 3D convertido surpreende com o cuidado de tratar todas as camadas individualmente, buscando dar realmente as dimensões necessárias para o aprofundamento na história. Não vemos sustos, ou efeitos apelativos, o objetivo principal aqui é a imersão na história, que funciona plenamente, desde a introdução dos lugares às cenas de ação. Algum estranhamento acontece nas cenas onde a animação de ambientes (feita pela Pixar na época) se juntam a animação 2D, dando um tom recortado, mas que não compromete a proposta inicial.

       A direção de arte é um espetáculo à parte e os elementos de cena ganham vida (literalmente). Os objetos, falantes ou não falantes, compõem uma gama de cores que simbolizam exatamente o estado de espírito da atormentada Fera em sua luta contra seus próprios demônios. Dos pontos mais escuros do castelo, onde há um excelente jogo de sombras nas paredes frias no primeiro encontro dos dois, a clássica dança no salão principal. A trilha sonora original é um espetáculo a parte, e traz Celine Dion em tons simples de flauta, piano e violino, responsáveis por metade de suas indicações em prêmios.

      "A Bela e a Fera" dá uma nova dimensão aos clássicos Disney com o olhar de uma equipe técnica primorosa e a marca de ser a primeira animação da empresa ao começar seu processo com um roteiro ao invés de storyboard. Sua mensagem simples e um tanto desgastada, ganha com a maneira doce e delicada de passar que o que importa vem de dentro, não importando o resto, e que “sentimentos são... como uma canção... para a Bela e a Fera...”